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- É que ser feliz dá tanto trabalho. Ela disse franzindo a boca.
- E o que mais?
- O que? Que mais?
- O que tu ia me dizer antes de pensar que não podia.
- Como cê sabe que eu pensei?
Ele acendeu um cigarro, tragou, olhou pra ela.
- Quer um cigarro?
- Não, hoje não.
Os dois ficam em silêncio, uma sirene de ambulância grita por perto, se distancia.
- O que você ia dizer Amanda?
- Nada… nada. É só que… eu queria ver o sol se pôr.
Ele riu, segurou com as duas mãos a mão esquerda dela.
- Como alguém pode ter vergonha de dizer que quer ver o sol se por? Só você mesmo menina. - disse sorrindo.
- Não é vergonha. É que… droga, tô confusa.
Ele levou a mão dela à boca e beijou suavemente.
- O que você quer Amanda? - perguntou com a voz mais doce que conseguiu improvisar.
- Ver o pôr-do-sol.
- Então vamos.
- Não dá pra ver daqui. Esses prédios todos… não deixam. E não dá tempo ir pra outro lugar.
- A gente dá um jeito.
Ele jogou o cigarro, a puxou pela mão e correu até o prédio mais alto. Segurou o rosto dela e - para surpresa de Amanda - a beijou com urgência e delicadeza. Sorriu.
- Tá pronta?
Amanda, ofegante, acenou com a cabeça que sim.
- Quero que você pergunte aquele porteiro ali, qual o melhor caminho para se chegar ao mar. Você pode fazer isso?
- Posso.
Foi com ela de mão dadas até a entrada do prédio, e assim que o portão abriu pra um carro entrar foram até a guarita. Amanda perguntou em baixo tom de voz e teve que ir até a porta pra que o porteiro pudesse lhe atender. Renato ficou pra trás e o alarme de um dos carros começou a soar, seguido de outro. O porteiro foi na garagem verificar enquanto Renato e Amanda corriam para o elevador. Chegaram no último andar lívidos, rindo descontroladamente.
- Tá vendo? Nem é tão difícil ser feliz. Ele disse sorrindo.
- Não com você.
Por trinta segundos a magia inteira do mundo se concentrou no silêncio deles dois. E então Amanda interrompeu.
- O que você fez pra alarmar?
- Joguei umas conchas que trago sempre comigo nuns dois carros.
- Conchas tipo de mar?
- É, não conheço os outros tipos.
Ela riu.
- Que tipo de gente anda com conchas nos bolsos?
- O tipo que você gosta - disse a abraçando por trás - É pra dar sorte, amor.
- Então você abriu mão da tua sorte por mim?
- Se eu tenho você não preciso de sorte. Olha Amanda, olha, o céu tá pegando fogo!
Ela riu, ele sorriu.
- Antes, quando te pedi pra vir, eu pensava ‘um dia a menos, venci mais um pôr-do-sol’. Mas agora não.
- Agora o que?
- Mal posso esperar pelo próximo.
- Pôr do sol?
- Não, minuto.
- Esse não tá bom?
- Tá, mas tenho certeza que vai ficar ainda melhor.
- É? Por que? - Renato perguntou sorrindo.
- Porque ainda estarei contigo.
Pra menina que via tudo de dentro do apartamento foi o eclipse mais bonito já visto. O beijo dos dois foi grande o suficiente pra esconder o fogo que é o sol. E a silhueta dos dois, por mais que escura, brilhava mais que tudo já visto.
O sol fica mais bonito no escuro, a menina que disse. (via insubmissa)

(via cacadoradesonhos)

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